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terça-feira, 29 de maio de 2012

Ser ou não ser... um grupo

A questão sobre ser ou não ser... um grupo tem rondado nossos pensamentos e sonhos nestes últimos dias. Conversando com minha mãe sobre isso, ela me perguntou: vocês conhecem o texto sobre Ubuntu? Tá aí o texto.

Beijos,
Maria Falkembach.













           “A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.
Ela  contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando  terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele  chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas   as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós  poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?".
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda  não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"”


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Compartilhando a experiência

       Depois de fazer o oficina "Da energia à ação" com Carlos Simioni do Lume Teatro, hoje eu tive a oportunidade, junto com o Arthur Malaspina e o Higor Alencaragão de compartilhar o que aprendemos com o grupo. 
       O foco era unir os conhecimentos adquiridos na oficina com os movimentos do espetáculo "TATÁ dança Simões", em especial o movimento dos gaiteiros, para que pudéssemos adquirir precisão e segurança ao fazê-los. Foi muito boa a experiência de conduzir os exercícios e ver os corpos ganhando presença e, como diria o Simi, expandindo. 


Monique Carvalho

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Palavras da "Primeira Bailarina"


            Nesses quatro anos, dentro do curso, que espero dentro de poucos meses concluir, discutimos e vivenciamos práticas e assuntos variados. Muito do que eu entendia por dança foi desconstruído e outros aspectos agregados.
         Por nunca ter me relacionado tão diretamente com a arte da dança, vim parar no Tatá, para me reconhecer corporalmente. Já que sempre nos foi dito que licenciado deveria ter vivências corporais distintas.
         Ouvi discursos inflamados, de levar a dança para a escola, uma dança democrática, que abranja a todos sem distinção.  Com o passar do tempo fui acreditando ser possível, essa nova dança acontecer. Mas como o papel aceita tudo e através da palavra podemos proferir qualquer discurso. Tudo é possível nessas condições. Na prática é diferente.
        Nesses meses em que o Tatá passou por várias escolas, deparamo-nos com a realidade, nua e crua. Dificuldades físicas, de entendimento do que lá fomos fazer, do desentendimento sobre qual dança o Tatá faz.  Não é difícil entender esse “não entender”, se dentro do próprio curso, algumas vezes, visualizamos essa não clareza, essas tensões constantes. Essas cordialidades forçadas...
        De tantas vezes me questionaram começo a ficar em dúvida, que dança é essa que o Tatá faz? Desorganizada, no meio do caos, bailarinos despreparados (despreparados não! Temos duas aulas por semana de preparação corporal, desde o ano passado com a professora Silvia).
        Que motivo leva alguém a participar de um grupo que viaja no caos, incomoda-se todos os dias com ônibus, figurino (se é que se pode chamar de figurino, é o que às vezes ouvimos), reunião na ida (para a escola!), reunião na vinda (da escola!), reunião por telefone, por email, por carta, sinal de fumaça, torrar no sol atrás de orçamentos, afundar o caminho da reitoria, preencher muuuitos papéis e ainda, na hora da correria, ensaiar das oito da manhã, até as dez da noite. Muitos chegam, quase, faltando pedaços no dia da apresentação. E, no último minuto, a coreografia ainda pode ser modificada ao sabor da vontade da coreógrafa?
        Que grupo é esse que talvez nunca vislumbre a possibilidade de galgar postos mais altos (eu não sei quais são), pois aqui tudo é caos, e as pessoas “de bem” não entendem essa dança. Coisa de quem viaja!
        Qualquer um dentro do curso de dança que tenha passado, no mínimo, pelo segundo semestre sabe quem são os bambambãs da dança no Brasil. E que toda a dança é bem vinda (em teoria, é claro!). Sabem que passar por uma oficina com uma dessas figuras é motivo de status no currículo.
        O aluno mais atento também perceberá, que se juntarmos todas essas pesquisadoras conceituadas, a base é muito parecida. Muda uma vírgula aqui, outra ali...  Foi como senti vendo a oficina onde estavam, Luciana Paludo, Eva Schul (neste último final de sema em POA) entre outras. Percebendo que essas pessoas são gente como a gente.
          No festival de Joinville em 2010 tive essa mesma sensação nas oficinas, me sentindo em sala de aula fazendo atividades muito próximas as que estamos acostumados no curso.
          Se todos(as) bebem de  fontes parecidas, porque lá fora (da UFPEL) fazem tanto sucesso?  Penso que é porque santo de casa não faz milagres.
          Estou farta de escutar sempre as mesmas exclamações: Quando vão fazer coisas que as pessoas entendam!!! E o que as pessoas entendem? E o que querem entender?  Será que para ficar “famosa” tenho que fazer coisas que as “pessoas entendam”. E o que é ser famosa?
          Talvez nossa coreógrafa precise fazer cursinho de coisas “normais”.
         Já imaginou se não existissem pessoas anormais, o que seria de mim?
         E para quem me faz essas questões sempre que me vê, respondo o seguinte:

        - Eu gosto de estar aqui.  Não tenho uma maquiagem pela manhã, uma a tarde, outra a noite. Nos três horários uso a mesma. Às vezes, na troca, podemos nos perder.
        - Não tenho pretensão de ser estrela, galgar postos dentro da universidade, até porque ainda não criaram o cargo de “Primeira.” (de segunda eu não aceito!).
        - Eu me divirto muito!!! E como diz o nosso ex-colega Vagner, temos que nos sentir felizes! E quando estou aqui, é assim que me sinto.
       - Não tenho que provar nada para ninguém, a não ser para mim mesma.
        - Choro muito!! Aqui eu posso chorar, quantas vezes forem necessárias (muitas vezes de rir).
        - Quando as coisas vão mal, a gente discute a relação. Todos temos língua e olhos.     Então olhamos nos olhos da pessoa e falamos!!! Ou pelo menos tentamos. Simples. Sem cursinho!! E depois fica tudo bem, até o próximo problema. Mas a gente nunca esquece “tem que ser nos olhos”. Se falar em outro lugar tá fora do jogo!!
        - Aqui é de bom tom falar a palavra Merda! (normalmente acadêmico não pode falar.)
        - Outra novidade! Estamos resignificando a palavra GRUPO. É um modo GRUPO de ser Tatá. Exercício diário, difícil e dolorido, desalojar-se para compartilhar com o outro. Descer do salto!
       - Aqui não tem a árvore da frente, e quando aparece alguma querendo crescer, a gente corta pela raiz!
       - Não preciso achar tudo lindo, o que, aliás, muito do que os meus colegas entendem como maravilhoso eu não vejo assim. Isso é legal! Os meus sentimentos são diferentes.
      - As pessoas que fazem parte do Tatá, são como as nossas sacolas. Umas são maiores, outras menores, umas estão desgastadas, outras o tecido está bem novinho! Ninguém dá nada por elas, mas quando vai ver tem uma grande surpresa.  Pois é! Que bom que somos muito diferentes. Que bom que aqui não tem forma. O que temos em comum é acreditar.
        - Tenho direito a não ter me sentido bem nesta ou naquela apresentação!! E de vez em quando, se o GRUPO decidir podemos mudar o rumo das decisões. (Estamos aprendendo ainda!)
        - Podemos, ou tentamos ser honestos com nós mesmos.
        - Tenho o direito de me perguntar todos os dias: O que eu estou fazendo aqui? Acredito nesse projeto, ou estou só de passagem, fazendo “carreira”?
        - E se é tão ruim, porque incomoda tanto? E se eu me enganar? E se isso não for dança? E se amanhã eu errar a fala?  E se o espaço for pequeno demais? E se a Evelyn não aparecer?
  Amanhã é dia de mais uma escola, certamente voltarei com um milhão de dúvidas, porque todas as manhãs (não são todas as madrugadas..) o que mais temos são dúvidas.
         O meu maior medo é que um dia eu acorde e nós, do Tatá, tenhamos nos transformados em pessoas normais!
          Hoje estou feliz. Amanhã eu não sei.

Gessi Konzgen

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dia de visitas, registros e muito ensaio

      Hoje durante nosso ensaio para a apresentação no Festival Internacional Dança.com recebemos a visita do pessoal do Projeto Boca de Cena que acompanhou nosso ensaio e registrou alguns detalhes. 


terça-feira, 28 de junho de 2011

A lenda boitatá... a escuridão... os nossos medos...






Questões provocadoras das ações corporais:

• Quais são os nossos medos?

• Quem é a nossa “boi tatá” hoje?

• O que é que come os nossos olhos e nos tira a luz?

Cada ator-bailarino foi provocado a lembrar de algum momento em que sentiu muito medo. Todos fecharam os olhos e deveriam mostrar como era esse medo nos seus corpos. As sensações corporais começam a tomar forma em cada movimento e não-movimento: pavor, procura por um abrigo e proteção, busca, dor, desespero, intensidade, tensão, contração abdominal, contração nas costas, contração das mãos e punhos, corpos trêmulos, corpos curvados, corpos assustados, todos afetados por algo forte que tomava conta e por vezes paralisava- era o medo vivido nos corpos, pelos corpos.

Maria, a coreógrafa, pede então que abram os olhos. E coloca: Como é esse novo olhar depois do medo que experimentaram há pouco? Percebam como estão os corpos de vocês. Quando a luz volta se deixem acolher e acolham. E agora? Como é esse novo olhar quando retorna a luz? Pensem como se cada um de vocês fosse agora um téu-téu que pudesse iluminar. O téu-téu é aquele que vê no escuro, ele vê muito além, ele é aquele que cuida do ninho de longe.

Ensaio de 01.06
por Catia Fernandes de Carvalho




Fragmento da Lenda de Simões Lopes Neto:

M'boitatá


Foi assim: num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia. Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.

Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições... Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando semver as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.

Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para abter na querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!

E a noite velha ia andando... ia andando...

Minto:

No meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar: era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol eque vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já...

Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu - quero-quero! - tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia se aguentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas. Fora disto, tudo omais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.

FONTE: Livro "Lendas do Sul" de J. Simões Lopes Neto. Editora Globo. 11a edição. 1983. disponível em: http://www.paginadogaucho.com.br/lend/mboi.htm






quinta-feira, 9 de junho de 2011

Ensaio sobre o conto BATENDO ORELHA!...

  Trabalhando um dos contos Gauchescos de J Simões Lopes Neto, sobre o homem e seu cavalo, mais precisamente sobre a doma deste cavalo, foi nos colocada a seguinte proposta pela coreógrafa:
           - Pensem em algum momento de suas vidas em que algo ou alguém tentou domá-los.
            A princípio parece sem propósito, embora esse trabalho seja norteado desta forma  (pesquiza em cima do corpo=vida do bailarino)          algumas falas tiradas dos textos e adaptadas, outras criadas a partir das histórias vividas pelo bailarino e o movimento vem a partir do que aquele assunto provoca no  corpo de cada um.
            Mesmo estando acostumada com este modo de compor, algumas questões ainda me pegam de surpresa.
            Em que momento da vida me senti sendo domada. São tantas as situações que isso acontece que é díficil pensar em uma apenas.
            Tínhamos que mostrar no corpo do colega o que pensamos.  O material que havia em cena naquele momento para traduzirr a idéia pensada em ação para que os outros pudessem ver eram algumas cordas, saias, tecidos...
            Então eu comecei a contar a minha história de alguns minutos, ou segundos talvez... e a chorar...
            Não consegui contar exatamente o que acontecia na escola, porque não era isso que realmente importava, mas como eu me sentia,
então peguei uma saia grande cheia de babados e cobri o corpo do colega que estava sentado, deixando só o rosto de fora, na verdade queria que aparecesse apenas os olhos e o nariz. O resto tudo deveria estar escondido. Essa saia me podou muitas possibilidades.
             Afinal de contas o que uma criança pobre e negra  ( moreninha ) tem para ser aproveitada na escola.
             Já se passaram muitos anos.
           A saia que eu coloquei cobrindo o corpo do colega continua aí pelas escolas da vida, limitando e domando muitas oportunidades...

Gessi 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foi por aí que eu perdi...



Pelotas, 1º de julho de 2010

Perda da avó

Ajoelhada, com as mãos sobre as coxas, Gessi narra:“Minha avó era cozinheira, ela cozinhava para estudantes. Hoje todos são engenheiros. Lembro que ela tinha uma cama imensa, em que todos nós cabíamos nela. Fiquei pensando no que eu perdi, e que eu gostaria de encontrar de novo: a minha avó.”
A coreógrafa-diretora Maria, provoca: “Gessi, imagina que estás contando essa história para alguém, lembra da tua avó e entra nessa cama imensa.
Aos poucos as atrizes bailarinas: Taís, Alexandra, Ionara e Tuani vão se aproximando de Gessi, e deitando ao seu redor como se estivessem no aconchego da cama imensa da avó. Gessi faz gestos de acolhimento, toca em cada uma delas. A cena acontece como se a cama não tivesse limites para o afeto daquela vó.

Perda da liberdade sobre o lombo do cavalo

Já cantava o músico e compositor Pelotense, Vitor Ramil: “como é linda a liberdade sobre o lombo do cavalo...” (música: Deixando o Pago). É esse o espírito da cena desencadeada por Roberta. A perda da liberdade, do sair por aí nos campos com seu cavalo.

A liberdade perdida... e na sua fala, breves pausas pela perda das palavras quando quer expressar aquilo que sentia quando corria pelos campos imensos sem preocupação nenhuma. Como se as palavras não tivessem esse alcance da experiência, das sensações lembradas. As palavras lhes escapam... Nessa cena, as atrizes-bailarinas Elen, Tauana, e Denise entram fazendo sons de percussão corporal simulando o trotear dos cavalos, na seqüência surgem movimentos de “peito aberto”, movimentos amplos, movimentos de liberdade. Ao fundo o ator-bailarino Vagner, se põe com movimentos que fluem como se estivesse cavalgando, e nas mãos cordas num emaranhado que se transformam em ações de um laçador.


Os atores-bailarinos das diferentes cenas se misturam com as trajetórias que começam a serem traçadas no espaço. Do lugar onde estavam, saem em diferentes tempos e percorrem a sala. Nesse momento, Maria, coloca: “é importante o impulso na hora da saída. A saída tem que ser expressiva. Ela tem que expressar liberdade, e deve partir de um impulso.”



Fragmento literário: Negrinho do Pastoreio (João Simões Lopes Neto)

“O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm. Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo —Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi... Foi por ai que eu perdi! Se ele não achar… ninguém mais.”

Texto-fonte: Contos gauchescos e Lendas do Sul.
3ª ed. Porto Alegre: Globo, 1965.
Editoração eletrônica de Luiz Abel Silva


Catia Fernandes de Carvalho
Coreógrafa- UFPel
Colaboradora do Núcleo de Dança-Teatro Tatá

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Corpo-Corda-Judiaria


Pelotas, 28 de junho de 2010


Maldade, judiaria, crueldade...

Elementos demasiados humanos que encontramos no conto gauchesco do negrinho do pastoreio e que foram norteadores para a criação de movimentos na interação dos corpos dos atores-bailarinos com as cordas.

O exercício físico realizado nesse ensaio foi o de pular corda com intensidade, até o momento do “negrinho” ir para o chão como se estivesse levando uma surra. Nessa cena interpretada por Gugu, ele pula corda em ritmo acelerado até uma queda em posição ajoelhada. É então, que Vagner e Ellen começam a dar breves chicoteadas com a corda no solo em direção à Gugu.

Outro exercício realizado de criação de movimentos,foi um no qual a diretora e coreógrafa Maria batia palmas como estímulo para que os atores-bailarinos criassem uma posição ou ação, enrolando a corda pelas partes do corpo e realizando assim, uma forma estética. A partir dos movimentos que foram surgindo nessa relação corda-corpo, Maria lançava a pergunta: Qual a qualidade do movimento que eu vou usar? O que quero expressar com ele?

Catia Fernandes de Carvalho
Coreógrafa- UFPel
Colaboradora do Núcleo de Dança-Teatro Tatá

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Vivências marcadas nos corpos...



Pelotas, 14 de junho de 2010

Mais um ensaio do Tatá...

Vivências marcadas no corpo...

Memórias corporais que dançam...

A partir da experiência de uma das atrizes-bailarinas, a Denise, o grupo tem experimentado a dança “chula”... Hoje ao som de uma música gaúcha, os atores-bailarinos vivenciavam os sapateios dessa dança. As batidas marcadas pelos pés procuravam atingir as batidas ritmadas da música. Apropriações minuciosas do corpo, uma relação de movimento-tempo com muita sonoridade, sons provocados pelo corpo... Ou melhor, uma percussão corporal na estética da cultura gaúcha.

Após essas experimentações, a coreógrafa Maria, distribui chapéus a todos fazendo referência ao chapéu do "Borguetinho", assim todos ajustam o acessório nas suas cabeças e observam uns aos outros. Logo a coreógrafa diz: "Vamos imaginar que nós temos uma gaita, e façamos nela movimentos curtos e amplos..."

Vão todos para o fundo da sala e preparam seus corpos para a ação provocada pela fala de Maria, coloca-se uma música marcada pelo som da gaita, e assim, os movimentos são improvisados de maneiras muito singulares.

A coreógrafa intervém: "entrem na música com a gaita"... Logo após acrescenta: "quanto mais trabalharem a oposição melhor!"

Os corpos dos atores-bailarinos se colocam em cena com mais intensidade, transformações de ritmo, postura, esforços... Acontece aí a fusão da gaita com o corpo, o instrumento imaginado passa a ser uma extensão do corpo.

Um corpo de ação, com inesgotáveis movimentos que surgem do som que afeta cada músculo. Sobressaem-se as oposições do movimento de abrir x fechar, de tensionamento e relaxamento. E quando esse esforço parece se atenuar, Maria reforça: "Se vocês esquecerem que estão com a gaita, perde toda a dramacidade..." Vamos novamente... Mais um exercício e na repetição da cena, a possibilidade de fazer algo diferente do que se fez antes. Maria lembra a todos: "O movimento tem que partir dos braços"...

Na construção da dramaturgia do corpo, a diretora e coreógrafa coloca: ”cada corpo será um personagem...Cada corpo aqui contará uma história...” Assim agrega a esses personagens as quadrinhas (ditos populares), as quais foram criadas em outros encontros do grupo. Maria pede para fazeram as quadrinhas no contexto de seus personagens, interagindo com a gaita. Todos fazem esse exercício coletivamente. E são observados atentamente por ela.

Logo após, os atores-bailarinos treinam as ações das quadrinhas nos seus corpos, individualmente, cada um com o seu personagem. Em alguns momentos do ensaio, uns param para observar os outros que estão agindo com a dramaticidade de seus corpos, há muitos revezamentos nesse sentido. Olhares vasculhadores, ressonâncias corporais... Criações que não se dão isoladas, são feitas de gente que se encontra pra dançar.

“Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!”
(Nietzsche)

Catia Fernandes de Carvalho
Coreógrafa- UFPel
Colaboradora do Núcleo de Dança-Teatro Tatá


SITUANDO...

Sobre a CHULA...

Dança em desafio, praticada apenas por homens. A chula tem bastante semelhança com o lundu sapateado, encontrado em outros Estados brasileiros. No sul, uma vara de madeira denominada lança e medindo cerca de 4 metros de comprimento é colocada no chão, como dois ou três dançarinos dispostos cada um em suas extremidades. Ao som da gaita gaúcha, executam diferentes sapateados, avançando e recuando sobre as mesmas. Após cada seqüência realizada, o outro dançarino deverá repeti-la e em seguida realizar uma nova seqüência, geralmente mais complicada que a do seu parceiro. Assim, vencerá o dançarino que perder o ritmo, encostar na vara ou não conseguir realizar a seqüência coreográfica desafiada pelo anterior.

A chula antigamente era usada durante os bailes, onde dois peões queriam dançar com uma mesma prenda então desafiavam-se, aquele que fizesse o passo, em sapateio, sem erros teria o direito a dançar com esta prenda pelo resto do baile.
Hoje essa dança é mostrada apenas de forma cultural durante eventos, rodeios, etc, porém não podendo repetir o passo, sapateado, de seu oponente.
disponível em: http://www.pampasonline.com.br/Terrasdosul/dancas.htm


Sobre o BORGUETINHO...

Ele foi o primeiro gaúcho a ganhar um disco de ouro por um trabalho instrumental nativista, ainda nos anos 80. Já se apresentou várias vezes no exterior e até em festivais de jazz. Para não perder seu referencial, Borguetinho sempre se apresenta pilchado. "Procuro mostrar o folclore como uma música mais aberta, mas sempre situando o Rio Grande do SUl e o Brasil".
Fonte: Aplauso - Cultura em Revista - set/98
textos de Sean Hagen


A MAGIA DO GAITEIRO

Se alguém, algum dia, ousou dizer que a tradicionalíssima gaita ponto seria um instrumento limitado, é porque jamais imaginou a existência de Borghetinho no universo musical. Gaúcho de cultura enraizada, Renato Borghetti é bem mais do que um dos maiores instrumentistas do Brasil: ele é compositor, músico e inventor- quase um mágico das notas musicais. De seus primeiros experimentos com a cartola, fez surgir em sua gaita simples uma variedade de notas antes inexistentes. E é por entre notas e acordes, que o artista e sua inseparável criação já trilham um caminho reconhecido internacionalmente; com quase 30 anos de trabalho, ele expõe agora o último dos 23 álbuns: Fandango. Do primeiro álbum, gravado em 1984, até o atual, a diferença não está apenas na experiência adquirida. Ele acredita que sem perder a essência gaúcha que o caracteriza, a renovação e a contemporaneidade aperfeiçoam cada vez mais o trabalho. Nascido em berço urbano, na capital Porto alegre, ele garante ter sempre pertencido ao campo: “Meus pais são ligados à cultura tradicionalista. Sempre que posso, estou aqui no campo.” Disse ontem à tarde, por telefone, enquanto andava por terras da Barra do Ribeiro.

MÚSICA GRAVADA NO AR DOS PAMPAS

É lá mesmo, na campanha, que Borghetti decidiu gravar Fandango. Sem a clausura seca dos estúdios musicais da cidade, pela primeira vez o instrumentista quis ousar em novos ares. Com a ajuda de uma equipe de profissionais, foi montada uma espécie de estúdio rural na sala de casa: uma maneira bem gaúcha de fazer música. “Minha música é rural. Por isso, nada mais justo do que gravar aqui. Inverti a mão; trouxe todos os equipamentos pro meio do campo, que é a essência de tudo”, conta, garantindo ter rendido boas surpresas no resultado: “eu acho que a música sempre tem que surpreender no lado positivo da qualidade. Embora tenha sido gravado aqui, ele não teve menos qualidade do que os gravados na cidade. Pelo contrário, foi muito mais confortável musicalmente do que estar dentro dos estúdios.”
Além da orgânica presente no ambiente campeiro, o álbum, também lançado em DVD, trouxe outra novidade: as filmagens documentais realizadas durante as composições das músicas, produzidas quase totalmente lá na Barra do Ribeiro. “ Essa idéia de captar tudo que acontece é muito romântica, mas é perigoso. Corríamos o risco de não estar em um bom dia e não conseguir render bons arranjos”, pondera, entre risos. Por sorte, não foi o que aconteceu: com a inspiração – e a gaita- a seu lado, Borghettinho construiu mais um grande trabalho, junto aos companheiros Vitor Peixoto (piano), Pedro Figueiredo (sax e flauta) e Daniel Sá (violão).

SUCESSO INTERNACIONAL

A fórmula não só deu certo como foi reconhecida dentro e fora do país. Único álbum independente indicado ao Grammy Latino em 2008, Fandango percorreu a Europa sob a bênção de um selo italiano. Assim que cumprir a agenda regional, eles já estão com a viagem marcada: o quarteto instrumental volta aos países europeus, em junho.
Sobre o segredo dos 30 anos de arte tradicionalista, o gaiteiro já sabe como explicar. Com 46 anos de idade, Borghetti retira da infância suas lembranças da primeira gaita ponto presenteada pelo pai, afirmando: “Desde o início fiz música regional, gaúcha. Acho que a gente tem que experimentar, inovar e se atualizar, mas não pode de maneira alguma perder a referência”, acredita, afirmando ser sua essência mais importante do que sua própria figura artística: “De onde tu vens e de onde vem tua música? Essas são as perguntas mais importantes para se fazer a um artista. Não tenho pretensão que ouçam a minha música e identifiquem que é minha. Só quero que a escutem e digam: “Esta é uma música gaúcha!”

Fonte: Diário Popular, quarta-feira/quinta-feira, 21 e 22 de Abril de 2010.